Marketing também é autocuidado profissional

Falar sobre o próprio trabalho não é autopromoção — é autocuidado. Entenda por que o marketing ético é parte essencial da rotina de qualquer psicólogo que deseja construir uma carreira sustentável, coerente e com propósito.

MARKETING PARA PSICÓLOGOS

11/7/20255 min read

Há uma ideia que habita o imaginário de muitos psicólogos: “se o meu trabalho é bom, as pessoas chegarão até mim”. Sem dúvida, essa crença parece nobre e, em certa medida, é. Afinal, ela nasce do compromisso ético, da recusa à autopromoção vazia e do respeito à singularidade do outro. Mas, por trás dessa “nobreza” há também uma armadilha: a ideia de que cuidar da própria visibilidade é uma forma de vaidade e não de autocuidado.

O resultado dessa crença? Profissionais esgotados, sub remunerados e inseguros sobre o seu lugar no mercado (e, muitas vezes, invisíveis em meio a tanto ruído). Porém, é possível reescrever essa narrativa. Afinal, o marketing também pode ser uma forma de autocuidado profissional.

Quebrando mitos

A psicologia é uma profissão de serviço. Isso, por si só, já carrega um peso simbólico, ou seja, de estar a serviço do outro. Contudo, estar a serviço do outro não significa se anular.

Durante um bom tempo, a imagem do psicólogo foi associada à neutralidade, discrição e ausência de qualquer ato de autopromoção. Essa postura fez sentido num tempo em que apenas o consultório era um local de escuta. Hoje, porém, o cenário mudou: o sujeito contemporâneo habita telas, consome sentido nas redes e busca ajuda no Google antes de buscar ajuda em si. Ser invisível, portanto, já não é sinal de ética, pode ser apenas um sinal de exaustão simbólica.


No atual cenário, o mundo precisa de psicólogos visíveis, não para vender promessas, mas para lembrar as pessoas que ainda há quem saiba escutá-las.

Postura ética ou apagamento?

Muitos psicólogos têm medo de se posicionar no digital pois tem receio de ultrapassar limites éticos. Muitos temem parecer mercenários, sensacionalistas ou invasivos. Contudo, ética e visibilidade não são opostos. Na verdade, podem até ser complementares.

A ética está no modo como o psicólogo se comunica. Divulgar seu trabalho não é “fazer propaganda”, mas sim educar o olhar do público sobre o valor da escuta. O psicólogo que fala de temas de saúde mental nas redes está, em certo sentido, realizando uma extensão do seu papel social, que é desmistificar, humanizar e oferecer reflexão. Isso não fere o Código de Ética, isso é o Código de Ética em ação.

Marketing para psicólogos: uma extensão da clínica

Ao contrário do que muitos pensam, o marketing para psicólogos não trabalha com as mesmas ferramentas do marketing tradicional. Aqui o objetivo não é criar slogans, gatilhos ou nenhuma forma de manipulação. A ideia central do marketing voltado para a psicologia é principalmente uma forma de presença da clínica ampliada.

Na sessão, você ajuda a nomear o que o paciente sente. No digital, você ajuda o público a reconhecer o que sente. Em ambos os espaços, isto é, na clínica ou no consultório, estamos trabalhando lugares de elaboração simbólica. Quando você escreve sobre ansiedade, solidão, autoconhecimento, está abrindo brechas para que o outro se reconheça e, talvez, encontre coragem para buscar ajuda.

Esse gesto, além de clínico, também é uma forma de marketing.


Autocuidado profissional

Cuidar de si não é apenas meditar, descansar ou fazer terapia. Cuidar de si também engloba sustentar o valor do próprio trabalho. Quantas vezes você atendeu além do limite, reduziu o valor da consulta ou se sentiu culpado por cobrar o justo? Quantas vezes você adiou a divulgação do seu trabalho, acreditando que “ainda não está pronto” ?. Essa auto sabotagem sutil é, na verdade, uma fuga da exposição. E toda fuga cobra um preço: o da invisibilidade.

O marketing pode ser uma ferramenta que auxilia no reconhecimento do profissional, não apenas pelo seu público, mas também por si próprio. Quando ele é feito com consciência, ele também é um ato de afirmação simbólica, já que através do marketing é possível construir um posicionamento sólido, onde o psicólogo afirma “eu existo”, “meu trabalho tem valor”, “minha voz também pode ajudar”. Isso não é ego, mas sim um autocuidado profissional.

Da escuta ao discurso

Durante a sua formação, o psicólogo aprende principalmente a escutar. No digital, ele também precisa fazer o exercício da escuta. Mas aqui, é a escuta do discurso social.

O algoritmo não é o inimigo. Ele é o espelho do que o coletivo está dizendo, mesmo que de forma distorcida. Saber ler esse discurso é uma nova habilidade clínica, já que por meio dele é possível entender as dores que estão pulsando, quais demandas estão emergindo, quais palavras precisam ser ditas. Essa leitura simbólica do social é também uma forma de escuta e, portanto, parte do trabalho do psicólogo contemporâneo.

Discurso que cura versus discurso que vende

O marketing promete soluções rápidas “5 passos para ser feliz”, “como eliminar a ansiedade”. Esse discurso captura o desejo e o transforma em produto. O marketing clínico, ao contrário, desenvolve no sujeito a capacidade de pensar sobre o próprio desejo. Um bom psicólogo não dá respostas - abre perguntas. Não ensina o que sentir - ensina a reconhecer o que se sente.

Quando você se comunica dessa forma, está fazendo marketing? Sim. Mas está fazendo-o com as mesmas diretrizes que orientam a clínica: não invadindo o espaço do outro, criando nele um espaço para se pensar.

Autocuidado também é estrutura

Todo psicólogo que cuida do marketing também está cuidando da estrutura que sustenta o seu ofício. Está garantindo, portanto, que o seu trabalho possa existir com estabilidade, continuidade e reconhecimento. Isso significa: criar uma rotina de divulgação leve, sem culpa; investir em sua identidade visual e textual como extensão do seu setting; comunicar-se de forma clara, mas sensível; estabelecer limites entre o pessoal e o profissional; e, acima de tudo, reconhecer que a sua voz tem valor.

O autocuidado não está só no repouso, mas também na organização simbólica do trabalho.

E o marketing é uma parte disso: o modo como o mundo te reconhece e te devolve o espelho do teu fazer.

O novo paradigma da presença ética

O psicólogo do século XXI não precisa escolher entre ser clínico ou ser digital. Precisa apenas saber sustentar o digital com o mesmo rigor da clínica. Isso implica pensar sua comunicação como parte do cuidado — não como uma tarefa de exposição, mas como uma extensão do processo terapêutico em escala simbólica.

O mundo está cheio de ruído, mas também de busca por sentido. E poucos profissionais têm tanto preparo para oferecer sentido quanto o psicólogo. Negar-se a estar presente é, de certo modo, deixar o discurso do sofrimento ser dominado por quem promete curas fáceis.

Ser visível é, hoje, um gesto político e clínico.

Conclusão: a ética do cuidado que se comunica

Marketing não é vaidade; é responsabilidade simbólica. Cuidar da sua imagem não é narcisismo; é preservar o espaço da sua função. Falar do seu trabalho não é autopromoção; é dar continuidade à escuta no território onde o sujeito contemporâneo habita — o digital.

Marketing, quando feito com alma e consciência, não te distancia da clínica, te ancora nela. Porque cuidar da própria presença é também cuidar da presença do outro.

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